Osasco,

 

Paulo Coelho
 

De diversas tradições

Tornando o campo fértil
O mestre zen encarregou o discípulo de cuidar do campo de arroz.
No primeiro ano, o discípulo vigiava para que nunca faltasse a água necessária. O arroz cresceu forte, e a colheita foi boa.
No segundo ano, ele teve a idéia de acrescentar um pouco de fertilizante. O arroz cresceu rápido, e a colheita foi maior.
No terceiro ano, ele colocou mais fertilizante. A colheita foi maior ainda, mas o arroz nasceu pequeno e sem brilho.
- Se continuar aumentando a quantidade de adubo, não terá nada de valor no ano que vem - disse o mestre. – Você fortalece alguém, quando ajuda um pouco. Mas você enfraquece alguém, se ajuda muito.

Sabendo escutar os insultos
No reino do Oeste vivia uma rainha chamada Layla. Sua sabedoria iluminava a terra como o sol, sua beleza cegava os homens, e sua riqueza era maior que a de qualquer outro soberano.
Certa manhã, seu principal conselheiro pediu uma audiência, e comentou:
- Grande rainha Layla! A senhora é a mais sábia, mais bela, e mais rica mulher do mundo. Mas eu tenho escutado coisas que não me agradam; certas pessoas riem ou reclamam de suas decisões. Por que, apesar de tudo o que tem feito por seus súditos, eles ainda não estão contentes?
A rainha sorriu e respondeu:
- Meu fiel conselheiro, você sabe o quanto tenho feito pelo meu reino. Sete regiões estão sob meu controle, e todas elas experimentam a paz e a prosperidade. Em todas as cidades, as decisões da minha corte são justas e inspiradas.
“Eu posso fazer quase tudo que tenho vontade. Posso ordenar que as fronteiras sejam fechadas, os portões do palácio trancados, o cofre do tesouro selado por tempo indefinido”.
“Mas existe apenas uma coisa que não posso fazer: mandar o povo calar a boca. Não se trata de escutar o que certas pessoas dizem de falso; o importante é continuar fazendo aquilo que eu acho verdadeiro”.

O lado bom sempre escuta
Quando ia para o lago, Confúcio sempre passava por determinada casa, e parava para conversar sobre o jardim da varanda, que era o orgulho do proprietário.
Às vezes, o homem estava bêbado, mas Confúcio fingia não prestar atenção ao fato, e continuava a falar do jardim.
Certo dia em que o homem estava muito embriagado, um discípulo comentou:
- Ele não escuta, porque sua alma está cheia de álcool.
Confúcio respondeu:
- Uma pessoa só consegue se desenvolver, sabendo que tem um lado bom. Mesmo nos momentos de fraqueza, é preciso chamar a atenção para este lado. Então, eu converso sobre a beleza de seu trabalho como jardineiro, e, em algum canto de sua alma, ele me escuta. Assim consigo evitar que a culpa destrua sua vontade de seguir o caminho.


 

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