De amigo
para amigo
Soube por minha sobrinha que “A Bruxa de Portobello”, meu novo livro – que nem sequer está impresso, e só será publicado daqui a dois meses, já está circulando em sua versão integral, com os comentários dos editores, pela internet. Fui tomado de uma súbita e justificada irritação, é claro: quem fez isso?
Meu próximo passo, evidente, foi procurar em todos os mecanismos de busca onde poderia encontrar o manuscrito. O resultado foi: em lugar nenhum. Mesmo assim, a sobrinha mostrou-me o original. Imaginei que tinha sido enviado por uma das cinco pessoas a quem costumo mostrar antes do texto ser publicado. Mas isso significaria lançar suspeita sobre gente que adoro; além do mais, mando meus manuscritos inéditos há anos para elas, e isso nunca, digamos, “vazou” para o grande público. Tampouco poderia ter vazado pelos editores, já que eles não têm o menor interesse em difundir gratuitamente algo que é sua fonte de renda.
Resolvi não apurar o culpado. Mas insisti com minha sobrinha, de 24 anos, onde ela tinha conseguido o manuscrito. Depois de muito relutar, ela mostrou-me um universo que eu, que navego na Web há dez anos, desconhecia completamente, e que é absolutamente impossível de controlar (como explicarei no final).
Portanto, já que não adiantava lutar contra o impossível, pedi para conhecer esta gigantesca teia. Ou seja, por quatro horas virei um “pirata” de mim mesmo. A sobrinha insiste que não tem nada de errado, que esta é a cultura da internet, que é isso que está mudando o mundo, e não as manifestações contra a globalização nos fóruns mundiais.
O que é a cultura da internet? Segundo as palavras dela: você tem direitos básicos à informação e ao prazer. Se tiver dinheiro para comprar um livro, vá e compre – é muito mais agradável ler sobre a forma impressa. Mas se não tiver, seus direitos continuam – e é preciso encontrar uma maneira de exercê-los.
Como? Existe uma zona estranha na rede, chamada em inglês de “Peer 2 Peer”. Procurei uma tradução (em um dicionário gratuito da internet), e significa mais ou menos: “de amigo para amigo”.
Como começou? Minha sobrinha tem a resposta na ponta da língua. No início, era a vontade de conversar com os outros. Em seguida, veio a necessidade de conversar com várias pessoas ao mesmo tempo. Mas conversar não basta – é preciso mostrar a música, dividir o livro ou o filme que amamos. Quando não havia nenhuma lei a respeito, estas informações eram livremente trocadas. Finalmente, quando a indústria de entretenimento se deu conta e começou a repressão, os jovens na internet conseguiram sempre se manter um passo adiante, e a coisa continua.
O conceito também mudou: antes, era dividir com os amigos algo que se admirava. Agora é deixar disponível, para quem quiser, algo que achamos que deve ser dividido.
O mecanismo funciona mais ou menos assim: eu compro um livro, gosto. Tiro uma fotocópia digital de suas páginas, e coloco no meu computador, ao mesmo tempo que abro um túnel para que alguém possa vir até aqui e pegá-lo. Por meu lado, entro neste túnel e vou a computadores dos outros, e pego também tudo que me interessa (normalmente músicas e filmes). Aos poucos, este material está estocado no mundo inteiro, e ninguém consegue mais evitar que seja copiado.
A primeira coisa que fiz foi pedir à minha sobrinha que tirasse imediatamente “A bruxa de Portobello” do seu computador, que está conectado ao “túnel”. Ela fez isso a contra-gosto, provando que naquele momento ele já estava estocado em mais 29 computadores diferentes. Em seguida me mostrou que apenas em um dos muitos lugares de “Peer 2 Peer”, eu tenho 325 obras, em diversas línguas, em centenas ou milhares de computadores.
Evidente que eu não vou ensinar a ninguém a como chegar ali – estaria advogando contra mim mesmo. Tampouco adianta digitar a expressão nos mecanismos de busca: eles não darão o caminho das pedras. Mas se você tiver em sua casa alguém abaixo de 18 anos de idade, com toda certeza ela já tem uma coleção de músicas que vieram deste lugar. Pergunte ao seu filho, neto, ou sobrinho.
Mas por favor, não diga a ele que só descobri isso agora: ele vai achar que estou velho demais, e perderei um leitor.
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