Hakone e Copacabana
Copacabana, Rio de Janeiro:
Eu e minha mulher a encontramos na esquina da Rua Constante Ramos, em Copacabana. Tinha aproximadamente sessenta anos, estava numa cadeira de rodas, perdida no meio da multidão. Minha mulher ofereceu-se para ajudá-la: ela aceitou, pedindo que a levássemos até a Rua Santa Clara.
Alguns sacos plásticos pendiam da cadeira de rodas. No caminho, nos contou que aqueles eram todos os seus pertences; dormia sob as marquises, e vivia de esmolas.
Chegamos ao lugar indicado; ali estavam reunidos outros mendigos. A mulher tirou de um dos sacos plásticos dois pacotes de leite e distribuiu para o grupo.
- Fazem caridade comigo, preciso fazer caridade com os outros - foi seu comentário.
Hakone, Japão:
Consigo que meu editor, Masao Masuda, finalmente me convide para tradicional cerimônia do chá. Ele acha que não vou entender direito: “não acontece nada especial”.
Vamos para uma montanha perto de Hakone, entramos num pequeno quarto, e sua irmã, vestida ritualmente em quimono, nos serve chá. Só isso: mas tudo é feito com tanta seriedade e protocolo, que uma prática cotidiana transforma-se num momento de comunhão com o Universo.
O mestre do chá, Okakusa Kasuko, explica: “a cerimônia é a adoração do belo. Todo seu esforço concentra-se na tentativa de atingir o Perfeito através dos gestos imperfeitos da vida cotidiana. Toda a sua beleza consiste em respeitar as coisas simples que fazemos, pois elas podem nos transportar até Deus”.
Copacabana, Rio de Janeiro:
Estou andando pelo calçadão, e escuto uma moça dizendo para a outra: “programei minha vida da seguinte maneira...”
Será que ela conta com as coisas que aparecem justamente quando não estamos esperando? Pensou que Deus talvez tenha um plano diferente, e muito mais interessante? Levou a sério a hipótese de que - ao incluir outras pessoas na sua programação - esteja interferindo em ideias e projetos distintos?
Não sei se a frase que escutei era fruto da inexperiência ou do delírio total.
Hakone, Japão:
Pergunto a Masao Masuda como os japoneses conseguiram conquistar mercados que antes eram dominados pelos americanos.
- Muito simples: os americanos têm uma ideia, trancam-se numa sala com pesquisas, tomam decisões, e gastam uma energia imensa para provar que estavam certos. Nós não queremos provar nada a ninguém: deixamos que cada ser humano manifeste suas necessidades, e procuramos solucioná-las. O resultado prático é que cada um termina comprando aquilo que já desejava antes.
“Quem só deseja demonstrar que está certo, termina por agir errado.”
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