A plena consciência
Diz Thich Nhat Hanh ("Vivendo Buda, Vivendo Cristo"):
"Em toda tradução religiosa existe uma prática de devoção, e outra de transformação. Devoção significa confiar mais em nós mesmos, e no caminho que seguimos. Transformação é praticar as coisas que este caminho nos impõe".
"Quando você diz: 'estou determinado a estudar medicina', esta frase exerce um impacto na sua vida, mesmo antes de se matricular numa escola. Você vê este passo como algo positivo, e quer avançar em direção a ele. O mesmo acontece em qualquer tradição religiosa".
Thich Nhat Hanh explica que a chave da paz é a plena coincidência. Quando bebemos um copo d'água com absoluta consciência do que estamos fazendo, entendemos o que significa a palavra "iluminação": ter a visão clara a respeito de alguma coisa.
Junto com a consciência de nossos atos, vem a responsabilidade pelo que fazemos. Isso nada tem a ver com preocupação.
Vamos dividir a palavra preocupação em duas: pré-ocupação. Ou seja, ocupar-se de algo antes que aconteça. Tentar resolver problemas que ainda não tiveram tempo de se manifestar. Imaginar que as coisas, quando chegam, sempre escolhem seu pior aspecto.
Há, é claro, muitas exceções. Uma delas é o herói desta pequena história:
Um velho rei da Índia condenou um homem à forca. Assim que terminou o julgamento, o condenado pediu:
- Vossa Majestade é um homem sábio, e curioso com tudo que os seus súditos conseguem fazer. Respeita os gurus, os sábios, os encantadores de serpentes, os faquires. Pois bem: quando eu era criança, meu avô me transmitiu a técnica de fazer um cavalo branco voar. Não existe mais ninguém neste reino que saiba isto, de modo que minha vida deve ser poupada.
O rei imediatamente mandou trazer um cavalo branco.
- Preciso ficar dois anos com este animal – disse o condenado.
- Você terá mais dois anos – respondeu o rei, a esta altura meio desconfiado. Mas se este cavalo não aprender a voar, será enforcado.
O homem saiu dali com o cavalo, feliz da vida. Ao chegar em casa, encontrou toda a sua família em prantos.
- Você está louco? – gritavam todos – Desde quando alguém desta casa sabe como fazer um cavalo voar?
- Não se preocupem – respondeu ele. – Primeiro nunca alguém tentou ensinar um cavalo a voar, e pode ser que ele aprenda.
"Segundo, o rei está muito velho, e pode morrer nestes dois anos.
"Terceiro, o animal também pode morrer, e eu conseguirei mais dois anos para treinar um novo cavalo. Isso sem contar a possibilidade de revoluções, golpes de estado, anistias gerais.
"Finalmente, se tudo continuar como está eu ganhei dois anos de vida, onde posso fazer tudo o que tenho vontade: vocês acham pouco?"
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