Histórias sobre a arte de ouvir
A linguagem do Asno
O sábio Saadi, de Shiraz, caminhava por uma rua com seu discípulo quando viu um homem tentando fazer com que sua mula andasse. Como o animal recusava-se a sair do lugar, o homem começou a insultá-lo com as piores palavras que conhecia.
- Não seja tolo – disse Saadi – O asno jamais aprenderá a tua linguagem. O melhor será que te acalmes, e aprendas a linguagem dele.
E afastando-se, comentou com o discípulo:
- Antes de entrar numa briga com um asno, seja ele animal ou humano, pensa bem na cena que acabaste de ver.
A corneta que afastava tigres
Um homem chegou a uma aldeia com uma corneta misteriosa, de onde pendiam panos vermelhos e amarelos, contas de cristal e ossos de animais.
- Esta é uma corneta que afasta tigres – disse o homem. – A partir de hoje, por uma modesta quantia diária, eu a tocarei todas as manhãs, e vocês nunca serão devorados por estes terríveis animais.
Os habitantes da aldeia, aterrorizados com a ameaça de ataque de um animal selvagem, concordaram em pagar o que o recém-chegado pediu.
Assim se passaram muitos anos, o dono da corneta ficou rico, e construiu um belo castelo para si mesmo. Certa manhã, um rapaz que passava pelo local, perguntou a quem pertencia aquele castelo. Ao saber da história, resolveu ir até lá conversar com o homem.
- Ouvi dizer que o senhor tem uma corneta que afasta tigres – disse o rapaz. – Acontece, porém, que não existem tigres em nosso país.
Na mesma hora, o homem convocou todos os habitantes da aldeia, e pediu ao rapaz que repetisse o que dissera.
- Vocês escutaram bem o que ele disse? – gritou o homem, assim que o rapaz terminou. – Esta é a prova irrefutável do poder da minha corneta!
Entendendo o silêncio
Num deserto da África, caminhavam o mestre sufi e seu discípulo. Quando a noite caiu, os dois montaram a tenda, e se deitaram para descansar.
- Que silêncio! – comentou o discípulo
- Nunca diga: "que silêncio!" – respondeu o mestre. – Diga sempre: "eu não estou conseguindo escutar a natureza".
Matisse e Renoir discutem
Desde jovem, o pintor Henri Matisse costumava visitar semanalmente o grande Renoir em seu atelier. Quando Renoir foi atacado pela artrite, Matisse passou a fazer visitas diárias, levando alimentos, pincéis, tintas, mas sempre procurando convencer o mestre de que ele trabalhava demais. Precisava descansar um pouco.
Certo dia, notando que cada pincelada fazia com que Renoir gemesse de dor, Matisse não se conteve:
- Grande mestre, sua obra já é vasta e importante. Por que continuar torturando-se desta maneira?"
- Muito simples. A beleza permanece; a dor termina passando.
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