Osasco,

 

Paulo Coelho
 

Reflexões sobre o Amor

Os três dias
Mansour Hallaj foi um dos grandes místicos do Islã, e viveu grande parte de sua vida no Iraque. Ele dizia que o homem é uma manifestação de Deus, mas seus trabalhos apresentavam algumas contradições com o que era oficialmente reconhecido na sua época.
Como resultado, terminou sendo acusado de blasfemar contra a religião, e foi condenado à morte.
No dia da sua execução, um dos discípulos perguntou:
- Mestre, o que é o amor?
- Olhe com cuidado tudo que acontecer comigo hoje, amanhã, e depois de amanhã – respondeu Hallaj. – Isso é o amor.
Naquele mesmo dia, ele foi morto.
No dia seguinte, queimaram seu coração.
No terceiro dia, espalharam suas cinzas, e nunca mais puderam recompor o coração de Hallaj.

O Tao e o amor
Os taoístas contam que, no início dos tempos, o Espírito e a Matéria lutaram entre si um combate mortal. Finalmente o Espírito triunfou – e a Matéria foi condenada a viver para sempre no interior da Terra.
Antes que isto acontecesse, porém, sua cabeça bateu no firmamento, e reduziu a pedaços o céu estrelado.
A deusa Niuka saiu do mar, resplandecente em sua armadura de fogo. Fervendo as cores do arco-íris num caldeirão, foi capaz de recolocar as estrelas em seu lugar, mas não conseguiu encontrar dois pequenos cacos, e o firmamento ficou incompleto.
Esta é a origem do amor: duas almas sempre estão percorrendo a Terra, em busca de sua Outra Parte. Quando encontram, conseguem encaixar os dois pedaços que faltam no céu, e o Universo inteiro passa a fazer sentido para o casal.

A medida do amor
- Sempre desejei saber se era capaz de amar como o senhor ama - disse o discípulo a um mestre hindu. - Mas como vou saber se meu amor é grande o suficiente?
- Procure saber se você se entrega, ou se você foge de suas emoções. Mas não faça perguntas como esta, porque o amor não é grande nem pequeno; é apenas amor, e não se pode medir um sentimento como se mede uma estrada. Se você tentar dimensioná-lo, estará enxergando apenas seu reflexo, como o da lua em um lago; não estará percorrendo seu caminho.

Reflexão
O trecho a seguir foi escrito por Emily Brontë, no seu clássico "O Morro dos Ventos Uivantes" – e descreve o amor da personagem principal por dois homens:
"Doce pássaro da juventude, me perdoa, porque as correntezas de paixões me carregam de um lado para o outro. Neste momento eu devo me entregar aos dois lados, sem tentar entender o que acontece em meu coração.
"Quando estas correntezas enfraquecerem, este doce amor irá permanecer. E mesmo que tudo acabe, basta que o amor sobreviva – e eu sobreviverei também. Entretanto, se tudo permanecer – menos o amor – o Universo passará a ser um estranho para mim."


 





 

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