Osasco,

 

Paulo Coelho
 

O sentido da verdade

Como eu já escrevi aqui certa vez, a verdade sempre tem muitas faces, e foi em seu nome que a humanidade cometeu alguns de seus piores crimes. Civilizações inteiras foram destruídas, os que procuravam um caminho diferente eram marginalizados. Há mais de dois mil anos, um homem foi condenado à morte em nome dos valores do seu tempo, mas nos deixou a grande definição da Verdade.
Ela não é o que nos dá certezas, nem profundidade, nem o que nos faz sentir melhor que os outros. Não é o que nos mantém na prisão dos preconceitos.
“Conhecereis a Verdade, e a verdade vos libertará”, disse Jesus. É isso aí.

O presidente do tribunal

Li a seguinte notícia no jornal espanhol “La Vanguardia”
“O presidente do tribunal, Josep Maria Pijuan, devia averiguar qual das versões de estupro oferecidas pela vítima, a menina J., de 11 anos, era a mais próxima da realidade. Os advogados que assistiam o interrogatório não acreditavam que ela conseguisse evitar as contradições no seu depoimento”.
“Em certo momento, o juiz fez uma pergunta de caráter quase filosófico:” O que é a verdade? É aquilo que você imagina o que pediram para que contasse?”
“A verdade é o mal que me fizeram”.
“O advogado Jufresa, jurista de reconhecido prestígio, disse que esta foi uma das definições mais brilhantes que escutou em toda a sua carreira”.

“Quando olhar os seus companheiros procure ver a você mesmo”, disse o mestre japonês Okakura Kakuso.
“Mas isto não é egoísmo?”
“Nós olhamos a maldade nos outros, porque conhecemos a maldade através de nosso comportamento. Nós nunca perdoamos aqueles que nos ferem, porque achamos que jamais seríamos perdoados. Nós dizemos a verdade dolorosa ao próximo, porque a queremos esconder de nós mesmos. Nos refugiamos no orgulho, para que ninguém possa ver nossa fragilidade”.
“Por isso, sempre que estiver julgando o seu irmão, tenha consciência de que é você quem está no tribunal”.

Onde está a verdade

“Certos discípulos vivem me perguntando onde está a verdade”, disse Maal-El. “Então, certo dia, resolvi apontar para uma direção qualquer, tentando mostrar que o importante é percorrer um caminho, e não ficar pensando sobre ele.
“Ao invés de olhar para a direção que eu apontava, o homem que me fez a pergunta começou a examinar meu dedo, tentando descobrir onde a verdade estava escondida”.
“Quando as pessoas procuram um mestre, deviam estar em busca de experiências que possam ajudá-las a evitar certos obstáculos. Mas, infelizmente, a realidade é outra: estão usando a lei do menor esforço, tentando encontrar respostas para tudo”.


 




 

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