ESPECIAL
Aguinaldo Silva aborda novos temas em Duas Caras
A telenovela “Duas Caras”, de Aguinaldo Silva, não conseguiu ser, pelo menos até agora, nenhuma campeã de audiência. Aliás, nesse sentido, a trama tem desagradado bastante com seus núcleos centrais. E vários personagens da novela sublinha uma sensação de “eu já ví essa história ou esse tipo em outra trama” como no caso de Juvenal Antena (Antônio Fagundes). A impressão que se dá é que Fagundes não conseguiu se desvencilhar de Pedro, seu personagem em “Carga Pesada” e a todo momento temos que nos defrontar com aquele ar de malandro, dando ordens e mexendo a cabeça. É evidente que a telenovela, por ser um produto televisivo pertencente a indústria cultural, não gera espaços e tempo para que o ator crie, em cada novela, um personagem de composição, mas se acomodar, pegando uma figura e encaixando em outra é um pouco demais. A obviedade de gestos, andar e tantos outros, que as vezes tem-se a impressão que o Bino (Stênio Garcia) vai chegar chamando-o para mais uma aventura pelo país. E olha que Stênio também está, só que em um processo bem diferente, criando um Barreto convincente, que pulsa criação, bem diferente de Fagundes. Se o personagem do ator não agrada, o mesmo não se pode falar dos confrontos dele e da filha Solange (Sharon Menezes). É interessante ver a briga de poder entre pai e filha, que não se conhecem, mas ao mesmo tempo ficam tentando construir laços afetivos. Solange odeia a Portelinha e tudo que lembra miséria, não concorda com aquele tipo de vida e vai se apaixonar por Evilásio (Lázaro Ramos).
As participações de Silvia (Alinne Moraes) são tão inexpressivas, que a gente fica pensando que Mariana Ximenez fez bem em recusar essa personagem. E o penteado montando a personagem lhe dá ar de travesti, outra composição equivocada é da própria Letícia Spiller como Eva. A atriz, na busca de mostrar um personagem diferente da TV, criou uma figura “over”, sem conteúdo, que não consegue dialogar com o público. As protagonistas Branca (Susana Vieira) e Célia Mara (Renata Sorrah) só estão na história, porque Aguinaldo Silva as queria depois do sucesso de “Senhora do Destino”. Branca não disse a que veio, vive seu mundinho gélido falando coisas comuns, nem de longe lembra a fala e a genialidade da outra Branca que viveu em “Por Amor”, de Manoel Carlos. Por sua vez, Renata Sorrah vai dominar a cena, uma porque a personagem é mais humana, tem um drama forte e ainda compreende e ajuda a filha disléxica, diga-se de passagem um tema novo abordado história da teledramaturgia.
Outro tema novo foi o conflito entre alunos e a universidade privada. Parece que já vimos isso na vida, não é mesmo, leitor ? As discussões em torno de posses, métodos de aprendizados e tudo mais, foi um mote inovador da novela. Outro enfoque diferente foi a homossexualidade de Bernardinho(Thiago Mendonça). No passado, os autores mostravam os personagens homossexuais como símbolos de bondades e renúncias, ou o contrário: um exemplo a não ser seguido. Bernardinho viveu a vida tentando cuidar da família, mas eles não viam isso como ato de amor e sim de dívida. Um certo momento, a madrasta Amara (Mara Manzan) arma um flagra para denunciar o enteado ao pai, mostrando que Bernardinho escondia de todos sua homossexualidade. A armadilha, em um primeiro momento, deu certo, mas o que a família não esperava era que isso fosse um mote para que o jovem se libertasse de preconceitos e olhares díspares da família e sociedade. Sem dúvida, é uma forma de mostrar que o homossexual não é um santo, muito menos um profano, é um ser humano com todas as possibilidades de dores e prazeres.
Em linhas gerais, a novela tem mostrado enfoques diferentes, mas ainda não conseguiu agradar os telespectadores, que mais preferem o modelo de novela anterior, estilo Gilberto Braga, do que essa que tenta manter a reprodução da realidade, mas peca no exagero de composições de alguns personagens. É isso, abraços e até o próximo “Espelho Mágico”.
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