Osasco,

 

Falando Sério
José Carlos Carturan Filho

 

Virtudes de madeira

Para dizer a verdade esta coluna começou, pelo menos mentalmente, a ser escrita na semana passada, mais precisamente na 4ª feira dia do jogo Brasil x Chile. Enquanto ouvia os fogos de artifício lançados para comemorar mais uma vitória da Seleção, estava me despedindo de uma pessoa muito querida, um tio avô, com quem não mantinha um relacionamento tão próximo quanto gostaria e que havia perdido sua esposa há menos de dois meses.
Na realidade, o sentimento da tristeza, da perda e do respeito trouxe consigo uma possibilidade de reflexão bastante intensa. Sinceramente admiro algumas pessoas que vão tocando a vida adiante sem se dar conta de algumas situações, sem prestar muita atenção nas coisas, sem buscar um aprendizado ou significado em cada acontecimento do nosso cotidiano. Creio que estas pessoas acabam sofrendo bem menos. Particularmente procuro estar atento a todos os sinais que a vida traz e principalmente estar preparado para interpretá-los ou recebê-los de forma adequada.
O fato que me trouxe esta reflexão foi que este meu tio era uma daquelas pessoas que ao fazer parte da nossa vida trazem um significado muito profundo e na maioria das vezes não sabem o quanto foram importantes. Talvez alguma pessoa como meu tio Sérgio tenha passado pela sua vida.
E a grande lição que este meu tio deixou, provavelmente sem saber, foi a de como transformar algo desfavorável em algo especial. Este meu tio perdeu a visão quando tinha aproximadamente 47 anos. Sinceramente não sei o motivo específico, não sei intimamente o que se passou com ele quando isto aconteceu. Lembro-me apenas de sempre ouvi-lo comentar que eu havia sido o último bebê que ele teve a oportunidade de ver. Dizia isto com muito carinho. Era daquelas pessoas com um repertório grande de piadas e que às vezes chegava até a telefonar e dizer: - Zézinho ouvi uma piada nova que você vai adorar, tinha que ligar para te contar!!!
Obtive também um dos grandes exemplos de amor, companheirismo, carinho e dedicação de sua esposa, minha tia Maria, falecida dois meses antes, que durante todo este tempo foi presente em cada momento.
O que me impressionava é que ele tinha um ateliê, de onde saiam brinquedos maravilhosos, feitos em madeira: caminhões, aviões, carros grandes e pequenos e até mesmo um ultraleve. O detalhe é que ele fazia tudo isto, na mais completa perfeição, sem enxergar. No caso da miniatura do ultraleve, o mais incrível é que não havia visto nenhum em tamanho natural antes da perda da visão. Foi até um hangar, tateou, tocou em toda a estrutura do ultraleve e com esta percepção através do toque construiu uma magnífica miniatura.
Estes brinquedos eram direcionados a crianças carentes de comunidades próximas e outros eram ganhos de presente por alguns privilegiados, como eu, que os guardo até hoje como verdadeiras relíquias. Agradeço aos meus tios Sérgio e Maria, que talvez mesmo sem saber, deixaram para mim ensinamentos preciosos sobre algumas das mais importantes virtudes existentes nos seres humanos.

 

 

 

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