Olhando para o próprio umbigo
Foi justamente um pôster de Britney Spears que me fez pensar algo que jamais havia levado a sério. A partir deste pôster, comecei a ver que havia – basicamente por parte das mulheres jovens, já que os homens não têm elegância suficiente para tal – uma obsessão compulsiva em mostrar o próprio umbigo.
Muitas línguas do mundo têm a mesma expressão, quando se trata de definir uma pessoa centrada apenas em si mesma: “está olhando para o próprio umbigo!”.
Por que? Britney Spears me levou a fazer algumas descobertas interessantes. Primeiro procurei uma enciclopédia, onde o umbigo é descrito de maneira muito limitada: cicatriz resultante da queda fisiológica (natural) do cordão umbilical. Geralmente, em humanos possui o formato redondo e fundo.
Ainda bem que não parei por aí, e aos poucos comecei a ver que a tal “cicatriz redonda e funda” possui algumas referências históricas sérias; as culturas antigas usavam a mesma palavra para definir os lugares que considerava sagrados.
No templo da Grécia onde se profetizava o futuro – o oráculo de Delfos, dedicado ao deus Apolo - havia uma pedra em mármore, justamente chamada “umbigo”. Relatos da época contam que ali estava o centro do planeta.
Em Petra, na Jordânia, existe outro “umbigo cônico”, simbolizando não apenas o centro do planeta, mas do universo inteiro. Tanto o de Delfos como o de Petra procuram mostrar o eixo por onde transita a energia do mundo, marcando de modo visível algo que se manifesta apenas no plano, digamos, “invisível”.
Jerusalém é chamada também de umbigo do mundo, como a Ilha da Páscoa, no oceano Pacífico. O mais curioso é que estas civilizações teoricamente jamais se comunicaram entre si.
A primeira explicação, mais lógica, logo foi descartada: através do cordão umbilical somos alimentados, ele é o centro da vida. Um psicólogo logo me disse que esta teoria não fazia o menor sentido: a ideia central do homem é sempre “cortar” o cordão, e a partir daí o cérebro ou o coração tornam-se símbolos mais importantes.
Na mitologia indiana, um dos símbolos de renascimento é o umbigo. No umbigo de Vishnu, divindade indiana responsável pela criação e pela destruição sistemática do universo, senta-se o Deus que tudo irá governar a cada ciclo. Os yogues o consideram como um dos “chackras”, ponto sagrado no corpo humano. As tribos mais primitivas costumavam colocar monumentos no lugar onde achavam que se encontrava o umbigo do planeta.
Nos textos compilados por antropólogos sobre as crenças de tribos mexicanas, podemos ler:
“Quando o feiticeiro começa a entender seu novo universo, ele entra numa espécie de transe, e "vê" que tudo a nossa volta é uma gigantesca teia de filamentos luminosos. Ás vezes estes filamentos se mostram como um ovo de luz, e isso significa que se transformam em um ser humano. O ponto de entrada desta energia no corpo da pessoa corresponde ao local onde está o umbigo.”
Finalmente, se você conversar com alguma artista profissional em dança do ventre, ela irá dizer que os movimentos mais clássicos são aqueles que tem o umbigo como centro.
Obrigado Britney Spears, por me fazer pensar em algo que jamais havia passado pela minha cabeça.
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