Osasco,

 

Sou o que trabalho
Rodrigo Deusdará Salvi

 

Trabalhar é impulso natural

Aprendi uma coisa, o trabalho é tão natural que até muitos dos animais gostam de fazê-lo. Os cães, por exemplo, não nasceram apenas para comer, beber, dormir e brincar. A grande maioria das raças foi criada para o trabalho.
Os homens desenvolveram o trabalho como forma de se relacionarem e aperfeiçoarem ao longo dos séculos. Não podemos nos esquecer, que na época do mercantilismo posterior, época em que não existia o dinheiro ainda, as pessoas realizavam trocas de mercadorias ao invés de comprá-las. Se eu era plantador de milho, trocava uma parte de minha safra com um boi para comer, com um pouco de arroz do outro plantador e assim sucessivamente, com cada um dos trabalhadores com o fruto do seu trabalho que me interessace.
O interessante é que após o advento do escambo e das moedas o homem passou a despertar um interesse natural em vender as mercadorias, e, após isto, tornar possível a negociação de outras mercadorias também através de dinheiro.
O capitalismo então, se mostrou uma forma ainda mais violenta de trabalho e comercialização de produtos e serviços, com todas as possibilidades de marketing, negociação e desenvolvimento industrial de inúmeras alternativas. O que presenciamos hoje é um massacre da sociedade capitalista onde quem não compra pode vir a ser excluído do contexto social. Neste atual momento, parece ter valor apenas aquele que pode comprar todo tipo de necessidade e desejo. Chegamos ao ponto de comprar até mesmo um seio novo, um nariz perfeito ou qualquer tipo de mudança estética aprovada pela sociedade do espetáculo. Os desejos pessoais estão acima de todas as coisas, já que tudo se pode comprar, até mesmo a felicidade, nem que superficial.
Voltando aos cães, pode parecer estranho, mas muitas das raças foram desenvolvidas para trabalhos específicos. Os labradores foram desenvolvidos para guiarem humanos, como os cegos. Os husky siberianos para guiar trenós na neve. Os rottwailers e os pitbulls para serem agressivos e lutarem em rinhas. O beagle para farejarem todo tipo de coisas e as encontrarem. Não é à toa que até hoje os rottwailers e pitbulls são usados como cães de guarda, os labradores para guiar cegos e serem grandes companheiros dos homens, os husky siberianos continuam a puxar trenós alegremente na neve e os beagles para fazerem trabalhos de farejar, como no corpo de bombeiros à procura de sobreviventes em escombros.
Assim, não são somente os homens que trabalham e sempre trabalharam, mas também os animais. A grande diferença é que eles não ficam esperando um salário ao final do mês para sobreviverem. A eles basta a alegria de ter o que fazer. Nós, com nossa capacidade de valorização das coisas e principalmente ganância, não conseguimos viver em uma sociedade solidária e igualitária. Precisamos nos tornar melhores uns que os outros e demonstrar isto em nossas posses financeiras, bens materiais e transformações estéticas.
O trabalho devia ser algo natural aos homens como é aos animais. Nós desenvolvemos uma forma diferente de ver e enfrentar os desafios da vida, o que ocasiona diferenças sociais, disputas e tantas outras formas de manipulação de poder em favor dos próprios interesses.

 

 

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