Osasco,

 

Check-Up
Antonio Júlio Baltazar

NO mês que vem, mais precisamente no próximo dia 12, estará completando 19 anos do falecimento em Roma, em plena Copa do Mundo de 1990, de um dos mais importantes jornalistas esportivos do Brasil, que conheci e convivi na minha carreira de cronista esportivo ao longos destes 32 anos.

NA classe dos jornalistas esportivos, conheci grandes personalidades, foram anos viajando com a Seleção Brasileira de Futebol, e participando de seis transmissões de Copas do Mundo, mas este personagem, gaúcho de nascimento, nasceu em Alegrete no Rio Grande do Sul, divisa com o Uruguai, em 1917.

TRATA-SE do incrível João Saldanha, cuja personalidade era um misto de aço e manteiga. Uma pessoa de fino trato, mas na hora das encrencas da vida, era sempre o primeiro a se expor, quer na violência verbal, quer na violência corporal.

MEU primeiro contato com João Saldanha, foi no ano de 1982, há 27 anos. Foi na distante cidade de Gootemburgo, a segunda cidade em importância da Suécia. A Seleção Brasileira fez uma partida amistosa nesta cidade contra a Seleção da Suécia.

TODOS os jornalistas e a delegação brasileira estavam no mesmo hotel, bem no centro desta cidade. No saguão do hotel, todos os brasileiros ficavam conversando. Num determinado momento, sentei-me num sofá, e bem ao meu lado estava João Saldanha.

NOS apresentamos, e disse que a minha rádio era da cidade de Osasco, na grande São Paulo. Fumante inveterado, puxou um cigarro e foi seco na sua indagação: “....vem cá Baltazar, aqui temos somente as grandes rádios brasileiras, e você com uma pequena emissora de Osasco também está aqui, tem que se tirar o chapéu para você...”

É verdade, na época somente os grandes cardeais acompanhavam os jogos da Seleção Brasileira de Futebol: Jorge Cury, Waldir Amaral, Fiori Gigliotti, Dualcey de Camargo e claro, João Saldanha, conhecido como o mais importante comentarista do Brasil, pela Rádio Globo do Rio de Janeiro.

RESPONDI que tinha muitos amigos empresários, e portanto, havia viabilizado aquela transmissão desde a Suécia. Naquela oportunidade ainda desconhecia a vida de João, no aspecto político. Um dos maiores comunistas do Brasil e tem mais, na época o partido PCB vivia na clandestinidade, numa época muito tumultuada.

POR ISSO, talvez tenha dito de pronto que conhecia a grande São Paulo, pois não somente viveu um bom tempo na Vila Formosa fugido que estava, pois havia sido condenado a seis anos de prisão por ter agredido um policial da cidade do Rio de Janeiro, houvera atirado uma cadeira na cabeça de um tenente.

NESTA oportunidade comandava as famosas greves, especialmente na Mooca e Belém, dois bairros operários de São Paulo. Este gaúcho nunca teve problemas financeiros. Ainda jovem, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde seu pai ganhou um cartório do governo federal. Era um boa vida, das praias cariocas.

FOI ténico da Seleção Brasileira de Futebol, depois de ter conquistado um difícil título de Campeão Carioca pelo seu querido Botafogo. Seu temperamento violento e sua participação política no comunismo sempre o deixaram entrelaçado entre o futebol e a política. Sempre armado, certa vez fez o goleiro Manga do Botafogo, acusado de suborno, pular um muro de três metros, perseguido pelo João, com seu revólver 38, inclusive deu um tiro nas pernas do goleiro.

MAS, voltemos ao hotel na Suécia, em 1982. Na conversa longa que tivemos, deu para perceber a sua cultura aberta de todos os temas. Falava seis idiomais com uma facilidade incrível. Fez cursos na China, Rússia e Thecoslováquia, tudo bancado pelo partidão. Num determinado momento, perguntou-me se na minha região havia um time de futebol profissional?

FIZ ver a ele, que a nossa região tinha mais de dois milhões de habitantes e que não havia mesmo um clube profissional. Com esta minha colocação, João acendeu outro cigarro, franziu a testa e foi incisivo: “...vem cá Baltazar, você viabiliza uma transmissão de rádio da Suécia, e não consegue viabilizar a implantação de um time profissional em Osasco e região?...”

ESTA colocação de João Saldanha, nunca mais saiu da minha mente. Foi como um sininho, sempre tocando, uma espécie de alerta para incentivar-me. Sua vida, sempre foi calcada em criar em cima de obstáculos e dificuldades e sabia muito bem o que estava dizendo. Era um mestre em vislumbrar o futuro.

A minha relação com João Saldanha sempre foi muito amistosa, a ponto de numa oportunidade ele ter sido convidado a dar uma palestra no Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, em Presidente Altino. Era um sábado, e quando o levavam para o Aeroporto de Congonhas para voltar ao Rio, ele pediu que o levassem até os estúdios da Rádio Difusora Oeste (atual Nova Difusora), no centro de Osasco e lá gravou uma mensagem de carinho a este amigo.

NÃO sei até que ponto Saldanha influiu na criação do futebol profissional de Osasco e Barueri, mas que influiu, disso não tenho dúvidas! Ele faleceu em Roma em 1990 e nesta oportunidade estava lá com a Equipe Furacão. Dei o último abraço naquele que foi um exemplo de profissional esportivo, cuja profissão tive a honra de abraçar. Um grande abraço João Saldanha aí no “segundo andar”..

FALANDO em futebol, neste final de semana estarei com a Equipe Furacão de Esportes da Rádio Iguatemi 1370 KHz, em Belo Horizonte, onde estaremos transmitindo a partir das 18 horas, deste domingo, o jogo Cruzeiro x Barueri, pelo campeonato brasileiro de futebol. Comigo estarão Adriano Zini, Toni Marchetti e César Roberto, até lá nos 1370 KHz.

 

 

 

 

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